Cada um tem a sua inflação

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Sei que muita gente questiona se a inflação divulgada pelo governo Federal é verdadeira. Por que há dúvidas se os índices divulgados retratam a realidade? Na prática o que os institutos de pesquisas entendem o que é inflação não é o mesmo entendimento do grosso da população.

Vejamos o caso do IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Amplo, que é o índice oficial de inflação no Brasil. O IBGE é órgão responsável por elaborar o IPCA. A primeira constatação é que a pesquisa não é realizada em todas as cidades brasileiras e nem seria possível dada a necessidade instantânea da informação. Fazem parte da pesquisa as regiões metropolitanas de Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, além do Distrito Federal e dos municípios de Goiânia e Campo Grande. Cada cidade tem seu peso no total, por exemplo, São Paulo responde por mais de 30% do total pesquisado, já Campo Grande tem somente peso correspondente a 1,5% do total.

Outro fator importante é que a população objeto da pesquisa abrange famílias que moram nestes centros urbanos e que tenham renda mensal entre 1 e 40 salários mínimos, ou seja, estamos falando de uma faixa de renda entre R$ 937,00 e R$ 37.480,00 neste ano. É importante este esclarecimento devido ao leque de produtos e serviços que farão parte da amostra para definir a alta ou baixa dos preços mensalmente, sem contar com esta faixa são atingidas 90% do total das famílias que moram nas cidades. Cerca de 20% das famílias pesquisadas têm renda de até 2 salários mínimos.

O cálculo leva em conta 373 produtos e serviços, sendo que cada produto terá seu peso sobre o total. Esclarecendo melhor: a cebola, por exemplo, pesará menos na inflação do que a mensalidade escolar e assim por diante. Para facilitar a análise o IPCA é dividido em nove grupos, cada um com peso relativo diferente: alimentação e bebidas (22,1% do total); habitação (14,3%); artigos de residência (5,4%); vestuário (6,2%); transportes (22%); saúde e cuidados pessoais (11,1%); despesas pessoais (9,2%); educação (4,2%) e comunicação (5,6%). Para cada grupo são elencados os produtos e serviços e os pesquisadores devem coletar de todos eles para depois compor a média que será comparada com o mês anterior, apurando alta ou não.

Vale ainda destacar que a composição dos 373 produtos vai desde arroz e feijão, passando por aluguel da casa, manutenção do carro, até material de pintura. E tem que ser assim, ou seja, representar a gama de produtos que faz parte do dia a dia das famílias.

Isso posto agora posso abordar o tema deste artigo: cada um tem a sua inflação. E é verdade. Quem tem renda baixa gasta a maior parte dela no grupo alimentação, se os produtos deste grupo subirem muito, o poder de compra cai mais para esta faixa de renda. Quem não tem filho em escola particular sente menos a inflação da educação, do que quem tem.

Observem que tanto o governo como as pessoas têm razão no tocante ao índice de inflação apurado. Para o governo o que vale analisar é a visão macroeconômica, isto é, a média ponderada de todos os preços da economia, e esta medida está sob controle, podendo fechar este ano na casa dos 3%. Para as famílias, dependendo da cesta de produtos que ela consome, a inflação é mais ou menos pesada. Vejam o caso dos combustíveis: seus recentes aumentos são diluídos em todos os preços da economia e na média, sua alta é compensada pela queda do preço do televisor, por exemplo, mas para o motorista que usa seu veículo intensamente, o peso do aumento dos combustíveis é muito mais expressivo.

Independentemente das questões metodológicas o que se espera ao longo do tempo que haja convergência nos preços, ou seja, que a maioria dos preços dos produtos e serviços não sofra elevação, evitando penalizar mais ou menos os consumidores dependendo de sua faixa de consumo. Aí sim daremos início ao ciclo do desenvolvimento econômico.

Qual é a sua inflação então? Independentemente de sua resposta, você pode acreditar na inflação oficial, a metodologia adotada garante isso.

Foto: Pexels.com

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