Muito além das manchetes

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Sem dúvida alguma as redes sociais estimularam as pessoas a se manifestar em relação a vários temas de nosso cotidiano. Alguns são reprodutores de conteúdo, compartilham tudo que recebem, sem qualquer análise crítica.

Assumem as questões como verdadeiras. Outros, desenvolvem seus próprios conteúdos e vão além das redes sociais. Estes últimos acabam opinando sobre tudo e, por vezes, sem o devido preparo, incorrem em erros, por desconhecimento da matéria que estão abordando. São de certa maneira “ignorantes”. Vale deixar claro que ignorante é diferente de pessoa desprovida de inteligência. Entre várias definições o ignorante, no contexto deste artigo, é aquele que desconhece algo, ou seja, não tem instrução sobre o tema.

Os que podemos denominar de “curiosos” tecem comentários sobre todas as ciências, fatos e acontecimentos e, em economia a coisa não é diferente. Normalmente são pessoas que se baseiam em manchetes da mídia, e, sendo tendenciosas em suas análises, não se aprofundam, e por desconhecimento (ignorância) dos conceitos acabam emitindo juízo de valor sem saber exatamente o que estão escrevendo ou falando.

Por este prisma, a primeira confusão que fazem é não entender o conceito de macroeconomia e de microeconomia. A macroeconomia são os agregados econômicos, microeconomia já é a análise específica, do comportamento entre vendedores e consumidores. Uso sempre a figura da floresta para explicar esta diferença. Vista por cima a floresta pode aparentar estar bem, vistosa, mas quando caminhamos entre as árvores, podemos encontrar cupim, árvores doentes, por exemplo. No caso, a floresta é a macroeconomia e as árvores a microeconomia. São exemplos de macroeconomia o Produto Interno Bruto, o desemprego, a inflação, entre outros. Observem que é sempre no agregado.

Quando analisamos, por exemplo, se a economia está ou não se recuperando a visão é macroeconômica. Vejam o caso do crescimento do PIB. Depois de dois anos de desempenho negativo, portanto, recessão, este ano o PIB voltou para o campo positivo. No segundo trimestre deste ano o resultado foi +0,2%. Se analisarmos as empresas isoladamente alguns setores não observaram este crescimento, podendo, inclusive, apresentar crescimento negativo. Vale destacar que isso ocorre em qualquer momento da economia, ou seja, não é possível se exigir comportamento uniforme em todos os setores, pois este desempenho individual ou setorial é afetado por outras variáveis que vão além da disposição do consumidor em comprar bens e serviços.

Quando a análise do crescimento é segmentada, observamos expansão nos primeiros sete meses deste ano na indústria e no varejo, mas ainda com queda no setor de serviços. O agronegócio, por exemplo, expandiu 28% no período. Setores como informática, veículos, máquinas e equipamentos estão no campo positivo, mas há setores, que ainda não sentiram a recuperação.

A questão básica é: o País está melhorando e a economia está se recuperando? A resposta é: sim! Mas não de maneira uniforme. Na visão macroeconômica a inflação explosiva do governo Dilma (acima de 10% ao ano) está mais comportada agora. Índices anualizados abaixo de 3% tendendo a ficar em torno de 4% nos próximos anos. Espaço aberto para queda dos juros, que chegou a 14,25% ao ano e agora está em 8,25% podendo fechar o ano na casa dos 7%.

A taxa de desocupação que já atingiu 13,7% da população economicamente ativa está em 12,8%. O denominado risco país que no início de 2016 estava em 387 pontos (base sem risco é 100), atualmente está na casa dos 250 pontos.
Os índices de Confiança tanto da Indústria como do Consumidor estão em alta. Há bons sinais de recuperação do consumo das famílias e da volta do crescimento no setor da construção civil.

Enfim, seria possível elencar tantos outros indicadores que apontam para o fim da recessão e a retomada, mesmo que gradativa da economia.

Evidentemente que o desafio do déficit público, e com ele o crescimento do endividamento do setor público, mais as questões políticas, somadas à corrupção, e ainda uma série de reformas que o Brasil terá que promover, podem nos levar ao pessimismo. Neste particular a opção é de cada um: ver o lado cheio ou vazio do copo.

Como colocado, pode ser que na visão microeconômica há empresas agonizando, trabalhadores desempregados, mas isso não pode ser confundido com a visão macroeconômica.

É o problema da análise da estatística: o desemprego, por exemplo, como mencionado, está em 12,8%, contudo, para quem está desempregado, o índice é de 100%. Isso vale para cada caso isolado, analisado no ambiente microeconômico.

Quem sabe com o que foi relatado aqui, algumas pessoas deixem de efetuar análises superficiais, se debrucem em leituras mais profundas. Fica a contribuição.

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