Com desemprego crescente, aumentam relatos de golpes com vagas falsas

Por on 4 de maio de 2019

Rebeca atendeu ao telefone e ouviu o que mais esperava: “Temos uma vaga com o seu perfil”. A proposta era um cargo de gerente, em que ganharia quase R$ 30 mil. Tinha cara de emprego dos sonhos, diz ela. “Mas em 10 ou 15 minutos de conversa, no dia seguinte na agência, percebi que era um golpe.”

Ela não é a única a contar essa história.

O número de pessoas em busca de vaga no Brasil aumentou 10,2% no primeiro trimestre do ano e soma agora 13,4 milhões de trabalhadores, segundo números divulgados no fim de abril pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

É uma fila que, na medida em que crescia, também via se multiplicarem acusações e indícios de vagas falsas e de outros artifícios lançados para enganar desempregados e tirar dinheiro deles no país. O quadro é apontado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), pelo Procon-SP e pelo site de defesa do consumidor Reclame Aqui – e confirmado por analistas.

“Infelizmente, são situações que se repetem, fruto da ação inescrupulosa de pessoas que tentam tirar proveito da angústia alheia, derivada do desemprego ou aspiração de tantos outros que desejam um progresso profissional”, diz o presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Brasil), Paulo Sardinha. “As práticas consideradas desonestas”, afirma, “são executadas por uma minoria”, mas os candidatos devem ter cuidado.

Iscas
Em São Paulo, o promotor de Justiça do Consumidor, Luiz Ambra, diz que o Ministério Público começou a investigar “um grupo de pessoas que estaria usando diferentes nomes no mercado para anunciar vagas nos jornais, atrair interessados com promessas de emprego que não existem e exigir que eles façam pagamentos”. “Existem evidências muito fortes dessa prática.”

Ambra relatou que uma das vítimas ouvidas na investigação disse ter sido atraída por anúncios de vagas para auxiliar de produção e estoquista.

Ao chegar ao local, teria visto 40 pessoas esperando entrevista. A agência, segundo ele, afirmou ao candidato que as vagas já estavam preenchidas, mas que havia outras duas – com salários entre R$ 800 e R$ 1.490 mais benefícios.

“Ele (a vítima) teria mostrado interesse por esta última. A empresa então teria sinalizado que estava tudo certo, que iria ter um treinamento, mas que ele ia ser contratado e só precisaria arcar com o custo do uniforme.”

O valor, R$ 390, seria descontado do primeiro salário, mas o convenceram a antecipar com o cartão de crédito. A estratégia teria sido a mesma usada com outros candidatos.

“Depois de efetuado o pagamento, quando vão assinar o contrato, verificam que não tem nada daquilo que haviam acertado – que a empresa só se compromete a prepará-los para entrevistas. Ela também diz que o uniforme está esgotado.”

Essa vítima contou em depoimento que conversou com outros trabalhadores que tinham participado de seleções na agência – e que teriam percebido que as propostas eram falsas.

Duas pessoas já ouvidas teriam conseguido bloquear seus cartões de crédito para evitar os pagamentos. Outras, não.

A investigação, segundo Ambra, foi desencadeada por queixas que os trabalhadores registraram no Procon e em sites de defesa do consumidor.

Segundo o Reclame Aqui, 30% das 4.872 queixas registradas no primeiro trimestre de 2019 contra agências de emprego e recrutamento trazem acusações de cobranças indevidas e vagas falsas. A cifra representa um aumento de 11,3% em relação aos três primeiros meses de 2017, e 2,4% ante igual período de 2018.

“Muita gente acaba deixando de denunciar por vergonha ou falta de informação de como proceder. E infelizmente, talvez ocorram mais casos do que aqueles que são registrados”, diz o dirigente da ABRH-Brasil, ressaltando que as denúncias também podem ser feitas de forma anônima à polícia e em outros órgãos.

A Coordenadoria Nacional de Combate às Fraudes nas Relações de Trabalho, do Ministério Público do Trabalho (MPT), apontou a existência de ações em Estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Rondônia.

Os casos envolvem empresas que, segundo a Procuradoria, cobravam taxas de candidatos para encaminhá-los a entrevistas ou vagas de emprego ou atuavam, por exemplo, usando promessas de vagas como isca para vender cursos e treinamentos – mas após a assinatura do contrato alegavam aos clientes que a vaga dependeria do desempenho do aluno.

Fonte: G1

Foto: Divulgação/MPT-RS


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