Manchas de óleo: desastre afeta reservas, turismo e comunidades pesqueiras

Por on 12 de outubro de 2019

Fonte: Portal G1

Mancha de óleo é vista em praia vizinha à foz do Rio São Francisco — Foto: Reprodução/ Simone Santos/Projeto Praia Limpa

As manchas de óleo que afetam as praias do Nordeste desde o final de agosto trouxeram problemas para o turismo e para o meio ambiente. Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o óleo já atingiu 150 localidades em 68 municípios de todos os 9 estados do Nordeste.

Até o último balanço, 12 unidades de conservação ambiental já haviam sido atingidas. Pelo menos 22 animais foram contaminados até quarta-feira (9), de acordo com o balanço do Ibama. Desses, 13 foram encontrados mortos ou morreram depois de capturados.

O ecossistema costeiro no Nordeste é considerado muito frágil por conter uma grande variedade de paisagens, com manguezais, enseadas rochosas e recifes de corais.

O turismo também já foi afetado. Comerciantes relatam queda de até 40% no movimento das praias desde o início da contaminação.

Veja abaixo os principais impactos causados pelas manchas de óleo no Nordeste:

Meio ambiente

O impacto da contaminação por petróleo nas localidades atingidas ainda está sendo estudado, mas pesquisadores alertam para a dimensão da crise ambiental.

“Nunca vimos no Brasil um desastre de tal magnitude, que afeta uma área tão extensa. O dano pode ser irreparável e os ecossistemas levarão anos para se recuperar”, diz a oceanógrafa Maria Christina Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em entrevista à RFI.

Araújo destaca ainda que o processo de recuperação das áreas afetadas pode ser longo e caro. “Isso exigirá um investimento não apenas financeiro, mas também em pessoal e logística. É impossível obter resultados a curto prazo.”

Nesta quinta-feira (10) o óleo atingiu uma área de conservação, a Reserva Extrativista (Resex) Cururupu, no Maranhão. A reserva é formada por 15 ilhas, tem 185 mil hectares e foi delimitada em 2004 pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O lugar abriga espécies ameaçadas, como o peixe-boi marinho, e tem mais de 90% de seus manguezais preservados.

Ao todo já foram atingidas 12 unidades de conservação do ICMBio:

Área de Proteção Ambiental Barra do Rio Mamanguape (PB)
Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais (PE)
Área de Proteção Ambiental Delta do Parnaíba (PI)
Área de Proteção Ambiental Piaçabuçu (AL)
Área de Relevante Interesse Ecológico manguezais da Foz do Rio Mamanguape (PB)
Parque Nacional Jericoacoara (CE)
Parque Nacional Lençóis Maranhenses (MA)
Reserva Biológica Santa Isabel (SE)
Reserva Extrativista Acaú-goiana (PB)
Reserva Extrativista Cururupu (MA)
Reserva Extrativista Marinha Lagoa do Jequiá (AL)
Reserva Extrativista Prainha Canto Verde (CE)

Fauna

As tartarugas marinhas são os animais mais vulneráveis às manchas de óleo. Dentre os 22 espécimes atingidos segundo o Ibama, 21 são tartarugas. Pelo menos três variedades já foram contaminadas: a tartaruga verde, a tartaruga oliva e a tartaruga cabeçuda.

Na segunda-feira (7) o Projeto Tamar suspendeu a soltura de filhotes de tartarugas na praia por conta da contaminação que atingiu os municípios de Conde e Jandaíra, no Litoral Norte da Bahia.

O Ibama, em conjunto com o Tamar, fez rondas noturnas na região para monitorar a desova das tartarugas. Os animais que estão oleados são limpos antes do retorno ao mar. Ali, pelo menos 79 filhotes foram remanejados e soltos pelo Projeto Tamar em praia limpa.

Além da Bahia, autoridades estão atuando para proteger a desova de tartarugas também no Sergipe. Na Reserva Biológica Santa Isabel vários ninhos foram protegidos pelo ICMBio, em parceria com o Tamar. A atividade consiste na identificação dos ninhos e recolhimento dos filhotes logo após o nascimento, seguida pela transferência dos animais para tanques e, depois, a liberação das tartarugas no mar em praia limpa.

Turismo

Moradores que dependem do turismo já observam os efeitos das manchas de óleo no movimento de visitantes.

Na praia de Guarajuba, em Camaçari, região metropolitana de Salvador, grandes quantidades da crosta do óleo tomam conta da faixa de areia e o cheiro forte incomoda banhistas e atrapalha a venda dos barraqueiros. Em Itacimirim os barraqueiros se juntaram para retirar as manchas de óleo que apareceram na costa litorâneo e assim não afastar os turistas.

Em Fortaleza, o movimento caiu cerca de 40% no fim de semana, segundo a Associação dos Empresários da Praia do Futuro (AEPF). Na barraca Itaparika, um dos maiores empreendimentos da região, a queda na frequência de clientes chegou a 50%.

Pesca

Comunidades de pescadores temem que a contaminação por óleo chegue aos peixes e prejudique a economia local. Na Bahia, a praia de Arembepe foi atingida pelas manchas de óleos. Trabalhadores da região já deixam de pescar por conta da poluição da água.

“A gente não pode comer o peixe mais, porque a água está toda suja. Há 15 dias apareceu uma nata de óleo e agora apareceu esse betume. A gente nem arrisca entrar na água”, disse o pescador Antônio da Paz.

No mesmo estado, pescadores da praia de Poças aposentaram as redes quando grandes placas de óleo passaram a se acumular nas pedras e na areia.

“Não podemos pegar os peixes, eles estão contaminados e não podemos vender”, disse o pescador Maicon Nascimento.

Balneabilidade

A ocorrência de óleo na faixa de areia faz com que diversos trechos do litoral nordestino sejam considerados impróprios para banho. Na praia do Futuro, em Fortaleza, capital do Ceará, 10 dos 11 trechos analisados foram reprovados.


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