Paralisação dos caminhoneiros: a conta chegou

Por on 23 de julho de 2018

Sem dúvida a recente paralisação dos caminhoneiros trouxe consequências danosas à sociedade brasileira como um todo. Não quero entrar no mérito se foi legítima ou não, mas o fato é que o grosso da população, notadamente os mais pobres pagou, paga e pagará um preço muito elevado.

Os números dão a dimensão inicial do tamanho do estrago provado pela greve dos caminhoneiros. Vamos apontar alguns indicadores.

O Banco Central apurou a prévia do desempenho do Produto Interno Bruto. Ele divulga mensalmente o IBC-Br, antecipando-se ao IBGE que trará os números oficiais do PIB: ficou em (-) 3,34% em maio se comparado a abril deste ano. Andamos para trás.

Este resultado é a comprovação dos indicadores já conhecidos: a indústria encolheu 10,9%, o varejo caiu 0,6% e o setor de serviços teve desempenho negativo de 3,8%. Um dos mais importantes indicadores, o que mede os investimentos produtivos, observou recuo de 11,3% em maio. Com tudo isso o nível de confiança dos empresários caiu, atingindo 90,5 pontos diante de 92,4 no mês de abril e a desconfiança chegou mais forte no consumidor com redução no nível de confiança de 86.9 para 82,1 pontos.

Além disso, a inflação, cuja elevação prejudica sempre os mais pobres, saltou de 0,4% em abril para 1,26% em maio. Com tudo isso é evidente que o nível de emprego não cresce levando ao desalento milhões de brasileiros. A informalidade é o efeito colateral indesejado.

Com tudo isso não deu outra: todas as previsões para o desempenho do Brasil neste ano despencaram. Por isso a colocação de que ainda pagaremos um preço por ela.

O crescimento da economia que poderia ser superior a 2% (alguns projeções indicavam até 3% de crescimento) agora foi revista para baixo: em torno de 1,5%, pouco acima do baixo crescimento do ano passado (1%). A própria inflação que ficaria mais próxima a 3%, portanto, no nível inferior da meta fixada pelo governo, agora projeta fechar mais próxima do centro da meta que é de 4,5%. Isso joga pressão nos preços indexados para o próximo ano.

Outro preço pago pela sociedade é o adiamento da redução dos juros no Brasil. Com a elevação da inflação, mais a pressão no câmbio (não somente pela greve dos caminhoneiros, mas potencializada por ela) tudo indica que os juros se manterão elevados, prejudicando o consumo das famílias (e evidentemente as vendas do varejo).

As famílias que por sinal estavam iniciando um novo ciclo, de mais otimismo, começando a voltar às compras, voltaram a ser cautelosos, como confirma o indicador de confiança do consumidor.

O ciclo vicioso se instalou: PIB menor, menos emprego, menos consumo, menos arrecadação tributária, mais endividamento público, mais desconfiança no Brasil.

O que tudo isso demonstra? Que o Brasil possui tantas fragilidades em sua economia que um setor como o de transporte é capaz de adiar até melhoria nas condições de vida da população. Isso sem falar na lentidão do governo federal na solução do conflito instalado.

A fragilidade é ainda constatada quando fatores externos nos abalam em proporção maior do que outras economias de nosso porte. Esta fragilidade fica evidente também quando não há um modelo econômico em curso que indique o caminho para o futuro do Brasil e temos que ficar analisando com lupa o que os frágeis candidatos à sucessão querem o Brasil. É tão frágil o modelo econômico brasileiro que ficamos esperando algo novo, quando na verdade, deveríamos neste momento somente falar em ajustes e não em reinventar o Brasil.

O segundo semestre será desafiador, e com o fim da copa do mundo, sem dúvida o humor de todos mudará à medida que as eleições de aproximam.

O desejo é que tenhamos maturidade para introduzir no Brasil um modelo econômico sustentável para que o preço pago até agora pela sociedade, seja ao menos, minimizado.

A conta chegou, e ficou cara demais. Que sirva de lição para mudanças estruturais.

Foto: Reprodução/ Veja / Leonardo Benassatto/ Reuters


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