Reforma da previdência não sai: e agora?

Escrito por em 22 de fevereiro de 2018

O governo do Presidente Michel Temer jogou a toalha e neste ano a Previdência Social no Brasil não será reformada. Todos sabiam que seria muito difícil conseguir o mínimo de votos para levar em frente às discussões nas mudanças na previdência, e agora isso é fato. Os parlamentares estão na fase “salve-se quem puder” e discutir assuntos impopulares não ajuda no futuro eleitoral de cada um. Enorme espírito “coletivo”.

Eu pessoalmente discordava de alguns pontos da reforma, notadamente os pontos que atingiam o setor privado da economia, mas quem tem um pouco de noção em matemática e finanças sabe que os buracos crescentes nos centros de receitas e custos da previdência vão se tornar insustentáveis ao longo do tempo. Os recursos da seguridade social serão gradativamente canalizados para a cobertura do déficit da previdência e faltarão recursos tanto para saúde como para assistência social. Podem espernear, dizer que tem sobras, que a DRU (Desvinculação da Receita da União) come 30% do dinheiro da seguridade social, mas é fato que com o passar do tempo a previdência comerá parte importante dos recursos públicos.

Esta geração de políticos abriu mão de enfrentar o problema. E agora? O mundo no vai acabar, ou melhor, o Brasil não vai acabar, mas as incertezas quanto ao futuro do País permanecerão.

Vamos dividir a análise em duas partes. No curto prazo a equipe econômica terá que buscar alternativas para segurar o rojão neste ano. A privatização da Eletrobrás é um caminho. Segurar os gastos com funcionalismo é outro caminho e é possível, enfim, serão requentadas medidas que no passado recente foram anunciadas, mas que não andaram. No total são 15 medidas nesta linha, incluindo a adiada reoneração da folha de salários de setores que foram favorecidos com esta medida no governo do PT.

A equipe econômica vai jogar para torcida, esperando que os agentes econômicos dêem o que podemos denominar de um voto de confiança. É como se tentassem demonstrar que não estão inertes. Nesta visão de curto prazo de alguma maneira o Brasil seguirá na recuperação econômica e os próprios agentes econômicos já precificaram a eventual adiamento da reforma da previdência. Em outras palavras: o ano não será perdido.

No longo prazo a coisa se complica e a pressão sobre os candidatos a sucessão presidencial se elevará. A pauta das reformas e não somente a previdenciária, será mais forte. Com as redes sociais, saindo das limitações de horário nas TVs abertas, a cobrança sobre como o País evitará a elevação do endividamento público será mais acentuada.

Para traduzir um pouco mais esta questão o que estará em jogo é como o País fará para que a relação dívida com o Produto Interno Bruto não exploda. Exemplificando: imagine em seu orçamento pessoal que cada mês que passa sua dívida com o banco cresce mais porque você gasta mais do que ganha e estes gastos não são em investimentos. Ao dividir sua dívida bancária por sua renda este resultado é cada vez mais elevado. Sai de 30%, passa para 40%, chega a 70% e a projeção é que ao longo dos anos sua renda estará 100% comprometida com sua dívida. O agente financeiro dirá: não empresto mais dinheiro, pois esta está se tornando impagável. Este é o grande risco brasileiro: a atual relação dívida/PIB que está na casa dos 70% suba, sem controle. Países que não fizeram a lição de casa sofreram com desequilíbrios de toda ordem e os ajustes foram mais danosos a sociedade do que se tivessem trabalhado preventivamente.

Resumindo: a percepção de risco do Brasil se elevará sem a reforma na previdência. As agências que avaliam este nível de riscos tendem a rebaixar a nota brasileira. Isso tornaria os custos de captação mais elevados, tanto para empresas como para o governo, sem contar que parte do capital mundial não seria injetado no Brasil (aversão a risco). No curto prazo não teremos grandes abalos e a projeção de crescimento da economia, com controle inflacionário não será fortemente abalada. No longo prazo sem dúvida alguma dependerá em muito da disposição dos candidatos a sucessão presidencial a oferecerem a sociedade estratégias de como enfrentar as questões aqui colocadas.

Se o pior dos mundos é não decidir, ao menos sabemos que o governo Temer será daqui para frente somente um rito de passagem. Espero propostas de alto nível para garantir o futuro sustentável de nosso País. Retardaremos mais um tempo o enfrentamento dos graves problemas do Brasil, lamentavelmente.

Crédito: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr



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